A Romaria por Pessoas com História

liliana.machado@aparecida.pt

Dizem que as lembranças são como fotografias guardadas em baús: quando as vemos pela centésima ou milésima vez, sorrimos; divagamos com o olhar; choramos e, por segundos, viajamos no tempo. Convidamos o leitor a viajar no tempo pelas palavras dos que, desde janeiro, nos têm contado histórias de Senhora Aparecida de outros tempos, sobretudo da Romaria da Senhora Aparecida.

“Das várias romarias que já viveu, recorda uma situação que todos temem ano após ano – a queda do andor grande. Pois bem, o Sr. Araújo presenciou a queda duas vezes e partilha o momento: «o andor grande caiu quando descia as escadas, um ano em cima de uma oliveira e outro ano em cima do coreto da música». Um outro episódio caricato e que mostra a raça e o bairrismo aparecidense está relacionado com uma espécie de desacatos com a polícia por esta não autorizar a saída dos andores, pois o bispo não permitia a descida com o andor grande pela calçada. No entanto, após a perseverança dos aparecidenses, a polícia foi obrigada a deixar os andores sair que, apesar de não dar a volta tradicional, fez parte do percurso. O Sr. Araújo conta que, antigamente, «os andores eram todos colocados ao cimo da calçada, de modo a que as rusgas (grupos de romeiros) que vinham, sobretudo de Freamunde, Paços de Ferreira, da Maia» e de outros locais, que vinham dar ao centro de Aparecida, pudessem colocar de imediato os olhos nos andores. Eram essas rusgas que animavam também a festa, já que chegavam à romaria a cantar e a dançar. Relata o Sr. Araújo que eram tantas as pessoas que visitavam a romaria da Senhora Aparecida «que havia, por aqueles dias, comboios especiais que traziam os romeiros, pareciam formigas apinhadas nas carruagens».

Antigamente, o programa da romaria era um pouco diferente do atual. A procissão fazia-se nos dois dias 14 e 15 de Agosto, com a diferença de que «no dia 14 a procissão saía inteira para as ruas e no dia 15 saía sem o andor grande», conta-nos o Sr. José Araújo.

Quando não havia «comissão para a romaria, naquela época, utilizavase o prato da Santa (as esmolas que ofereciam à Senhora Aparecida) e com ele se fazia a romaria», relembra ainda o Sr. Araújo. «(…) José Araújo continua, “havia, no largo, dois fornos comunitários que eram utilizados na romaria pelas barracas». “(…) as peripécias com a romaria de Senhora Aparecida não ficariam por aqui e João Babo relembra que «um ano, faltavam 8 dias para a romaria e ainda não havia quem a fizesse». Juntou-se com o Miguelzinho do Rio e numa semana trataram da banda de música, do armador e dos bombos. Segundo ele: «nesse ano fez-se uma festa muito bonita e sobraram ainda trinta e tal contos. Foi com o dinheiro que sobrou que se deu a primeira abertura às ruas em volta do adro» (…).”

“Como qualquer filho da terra que parte para longe, além da bagagem carregam-se também as saudades. Para Aninhas, apesar de gostar de viver em Angola, «por altura do mês de Agosto, lembrava sempre a romaria de Nossa Senhora Aparecida» (…).”

“As corridas na Senhora Aparecida já são muito antigas. O circuito até era ao contrário. Descia a calçada, ainda a calçada era em terra, e hoje sobe”, recorda o Sr. António e lembra ainda dois ou três nomes desse tempo – “vinha o Rato, o Pintarola e outro de Braga. Chegavam ali frente ao Clube, travavam e a mota ficava logo virada para baixo, pronta a descer a calçada.”