Lenda de Nossa Senhora Aparecida

In Jornal Vida Nova nº468, de 28 de julho de 1928
recolha por sergio.fernandes@aparecida.pt

Esta localidade que há cento e cinco annos tinha ainda o aspecto de uma floresta Virgem mas com apreciáveis dotes topográficos, assemelha-se atualmente a uma cidadezinha Sul-Americana acrescida de uma beleza incomparável! Chama-se a povoação de Nossa Senhora Apparecida. Escolheu Deus este recantinho para dota-lo tão preciosamente. Porquê? Porque previu os effeitos religiosos do milagroso acontecimento, que vae repetidamente narrado para conhecimento das gerações que por ventura o ignorem.

Esses efeitos ninguém os desconhece, e todos que conhecem a fé religiosa do povo que circunda a povoação de Nossa Senhora Apparecida, em cuja área residem muitas dezenas de milhares de pessoas, o podem asseverar. É d’uma animadora consolação ver-se com tantas pessoas de elevada posição social vêm contribuir para estas festas. E não é esse número limitado aos devotos residentes em Portugal, pois há-os e fervorosos nos vários Estados do Grande Brazil, de cuja memória não se apagará jamais o sentimento religioso em que foram educados e o nome santo de Nossa Senhora Apparecida que se habituaram a venerar e invocar nos momentos de afflição. Baseados em antigos documentos e na verdade da tradição, vamos historiar o grandioso acontecimento de há cento e cinco annos do qual resultaram os grandes benefícios que se deprehendem do que fica escripto: Nos últimos annos do século XVIII, esmolava por estas paragens um pobre ermitão, que se dizia estrangeiro e era uma alma angélica, que manifestava a sua bondade em todos os actos da vida! Estimava os animais e amava a criancinhas! Toda a gente o estimava e via nos seus sentimentos uma bondade inexcedível e nos seus lábios uma resignação bendita. Trazia consigo, em delicado oratório, uma imagem da Virgem que apresentava aos devotos quando pedia a sua esmola. Era seu aposento nocturno um subterrâneo, vestígios duma antiga mina secca, que existia no Monte da Conceição, lugar onde hoje se encontra a Ermida da Nossa Senhora Apparecida. Por vezes esse ermitão alargava os seus passeios e assim se passavam semanas e mezes sem ser visto nestes sítios. Um dia desappareceu de vez! Que lhe teria acontecido?

Morreria ou teria regressado á sua terra natal? Ninguém sabia responder, e assim passou ao esquecimento o pobre ermitão.

Passados, porém, bastantes annos, um fenómeno veio chamar a atenção do povo da freguesia para a antiga guarida do pobre ermitão; eram estrelas cadentes que em noites contínuas ali pareciam beijar o sólo e faíscas elétricas em dia de tempestade ali vinham cahir inofensivamente. O vigário e o povo da freguesia que presenciavam este fenómenos, cheios de curiosidade, resolveram fazer excavações e ali encontraram vestígios d’uma mina aluída onde apareceu a pequenina e rica imagem da Virgem que logo tomou o nome de Senhora Apparecida. Bem perto da imagem estavam uma pequena panela, vários resíduos e umas pedras de carvão vegetal, indícios claros de que era ali que o pobre mendigo descançava da sua vida errante e que foi ali a sepultura do ermitão a quem por certo um novo aluimento soterrou, mas deixando incólume através dos annos, a rica Imagem que o acompanhou na vida.

Quando se verificou este precioso achado, repicaram os sinos, e lágrimas de alegria cobriram o rosto dos que assistiram a tão milagroso acto.

Esta auspiciosa notícia percorreu o norte do país com velocidade dum raio e a peregrinação para este santo lugar seguiu-se sem interrupção por miríades de devotos que vinham render homenagem á Virgem Senhora Apparecida. Prolongou-se esta romaria por largo tempo tendo-se improvisado barracas para conforto dos romeiros, até que começaram as edificações que formam hoje uma bela povoação que, no Novo-Mundo, já mereceria o título de cidade.

Foram escolhidos os dias 13, 14 e 15 de Agosto para a imponente romaria que é uma das mais importantes de Portugal, e muito conhecida no Brazil, de onde vêem valiosas ofertas de devotos que nessas longínquas paragens recorrem á protecção da milagrosa Virgem que os attende. É comovente e consolador ver a crença dos devotos que vem cumprir as suas promessas arrastando-se de joelhos amortalhados e carregados com grossos círios.! Quantas pessoas, em momentos de afflição offerecem a N. Senhora Apparecida, os seus anéis e os seus cordões d’ouro e os seus brincos! Como é consolador ver esta fé tão bem aceite por Nossa Senhora Apparecida.

São decorridos mais de cem annos e essa fé nota-se sempre crescente em todas as pessoas desde as mais humildes até ás de mais alta posição. São estes mesmos sentimentos que animam a estes grandes festejos nos dias 13, 14 e 15 de Agosto.